Dirceu, o ministro sem pasta !

O consultor de empresas privadas — o nome de sua função é um elogio ao eufemismo — e deputado federal cassado José Dirceu lançou ontem o seu site em Brasília. O evento também marcou a largada de sua campanha em favor do que chama “anistia”. No mundo inteiro, tal palavra está associada a um perdão político. Dirceu foi cassado sob a acusação de corrupção. Não lhe tiraram o mandato por crime de consciência. Mas adiante: o homem que diz que um telefonema seu para o Planalto “é um telefonema...” (sugerindo que é ouvido) e que afirma fazer alguns serviços para Lula aproveitou a festa para acusar, vejam vocês!, as oposições de “golpistas”.
Dirceu é um hábil marqueteiro — nessa tarefa, sim, ele se sai bem. Sempre afetou aquele ar de superioridade e grandeza diante das dificuldades. O tempo em que foi superministro coincide com alguns dos piores momentos do governo Lula. Embora o Apedeuta recorra a seus préstimos no paralelo, como o próprio Dirceu assume, o fato é que até o petista-chefe deve se sentir um tanto aliviado com a distância. No poder, o então ministro era o rei das câmaras, lembram-se? Debatia-se muito; fazia-se quase nada.

Mas voltemos à acusação de Dirceu. Quem é ele? Como não lembrar do homem que, falando no palanque de uma assembléia de professores, afirmou que os petistas deveriam “bater” nos tucanos nas ruas e nas urnas? Dias depois, de fato, o então governador Mário Covas foi agredido. Aquilo era tentativa de golpe? Tomar a Esplanada dos Ministérios, num movimento coordenado pelas CUT, como se fazia à farta no governo FHC, era só liberdade de manifestação e opinião?

Dirceu pode até perder os pêlos, mas não perde o vício. A única acusação cabível à oposição é a de excesso de lhaneza. — trato desse assunto em artigo publicado na VEJA desta semana. E por que, então, a cascata do ex-ministro? Ocupar espaço, empurrando as oposições para uma espécie de defensiva: “Nós não organizamos o movimento ‘Cansei’ nem a passeata contra Lula. “

O mais interessante é que não organizaram mesmo. Ao insistir em tal tecla, Dirceu pretende que as oposições passem longe dos movimentos de protesto contra Lula. Faz um esforço para mudar a pauta do noticiário na esperança de que a falta de apoio logístico aos protestos acabe por levá-los ao esmorecimento.

Na edição de hoje, informa o Estadão: “Na noite de ontem, além do site, ele [Dirceu] distribuiu um livro de 107 páginas, intitulado Em Defesa de Dirceu, com informações sobre o processo, a cassação de seu mandato, em novembro de 2005, e a denúncia do Ministério Público. ‘Se a denúncia for aceita, quero ser julgado em no máximo dois anos”, afirmou. “Não posso ficar como réu sem julgamento, não quero prescrição nem impunidade.’” Falando ainda como ministro, com site, escritório político, uma frenética agenda de “consultorias” e disparando telefonemas para o Palácio do Planalto, Dirceu é a mais emblemática figura da impunidade do lulo-petismo.

Não é que ele tenha conseguido dar a volta por cima. A política brasileira é que está dando a sua volta por baixo
 
Blog Reinaldo Azevedo
8.8.07
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